Oscar 2025: conquistas inéditas e o caminho da representatividade feminina
- Rádio Plural
- 13 de mar.
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Por: Bárbara Guido
Na noite do último domingo, 2 de março, a 97ª cerimônia do Oscar aconteceu em Los Angeles, nos Estados Unidos. O filme “Ainda Estou Aqui”, estrelado por Fernanda Torres, Selton Mello e dirigido por Walter Salles, conquistou o Oscar na categoria de Melhor Filme Internacional. Concorrendo com produções da França, Letônia, Alemanha e Irã, essa vitória marca a primeira vez que o Brasil leva o maior prêmio da indústria cinematográfica nessa categoria.

Além da vitória, “Ainda Estou Aqui” também foi indicado na categoria de Melhor Filme, enquanto Fernanda Torres disputava o prêmio de Melhor Atriz. Nestas categorias, os vencedores foram, respectivamente, o filme “Anora” e a atriz Mikey Madison, por sua atuação como protagonista de “Anora”.
A 97ª edição do Oscar celebrou diretores, atores e profissionais de diversas áreas do cinema. Confira abaixo a lista completa de vencedores:
As mulheres no Oscar: 97 anos de avanços e a luta por mais representatividade
Em 2025, Mikey Madison foi a grande vencedora da categoria de Melhor Atriz, conquistando o Oscar em sua primeira indicação. Ela concorreu ao lado das estreantes Fernanda Torres (Ainda Estou Aqui), Demi Moore (A Substância), Karla Sofía Gascón (Emília Perez) e de Cynthia Erivo (Wicked), que recebeu sua segunda indicação.

A primeira indicação de Erivo ocorreu em 2020, pelo papel de Harriet no filme “Harriet — O Caminho para a Liberdade”. Fernanda Torres, por sua vez, tornou-se a segunda atriz brasileira indicada ao Oscar de Melhor Atriz, seguindo os passos de sua mãe, Fernanda Montenegro, indicada em 1999 por sua atuação como Dora em “Central do Brasil”, também dirigido por Walter Salles.
Demi Moore, com mais de 40 anos de carreira e sucessos como “Ghost — Do Outro Lado da Vida” e “Até o Limite da Honra”, recebeu suas primeiras indicações de destaque em 2025. Em janeiro, ela conquistou o prêmio de Melhor Atriz em Comédia ou Musical. Já Karla Sofía Gascón, indicada pelo papel de Emília Pérez no filme homônimo, fez história ao se tornar a primeira mulher trans indicada à categoria de Melhor Atriz.

A categoria de Melhor Atriz existe desde a primeira edição do Oscar, em 1929, quando Janet Gaynor foi premiada por sua atuação em “Sétimo Céu”. As categorias de Melhor Atriz e Melhor Ator Coadjuvante só foram introduzidas em 1937, com Gale Sondergaard sendo a primeira vencedora por sua atuação em "Anthony Adverse".
Apesar de reconhecer o talento de diversas atrizes ao longo dos anos, o Oscar não ficou isento de críticas sobre representatividade. Nas categorias técnicas, especialmente Melhor Direção, poucas mulheres foram premiadas. Entre os 474 indicados à categoria de Melhor Direção até 2024, somente nove eram mulheres, sendo a primeira Lina Wertmüller, indicada em 1976 por “Pasqualino Sete Belezas”. Até 2025, apenas três mulheres venceram o Oscar de Melhor Direção: Kathryn Bigelow ("Guerra ao Terror", 2010), Chloé Zhao ("Nomadland", 2021) e Jane Campion ("Ataque dos Cães", 2022).

Em 2024, apesar de Greta Gerwig ter dirigido o live-action de “Barbie”, que arrecadou mais de R$ 1 bilhão nas bilheteiras, ela ficou de fora da disputa na categoria, gerando revolta e questionamentos sobre a credibilidade da premiação. Já em 2025, a categoria contou com uma mulher indicada, a diretora Coralie Fargeat, por “A Substância”.
O relatório "96 anos de dados revela a resistência da sub-representação das mulheres atrás das câmeras", realizado pelo Instituto Geena Davis, destacou a disparidade nas indicações de homens e mulheres. Até 2024, somente 14,9% dos filmes indicados para Melhor Roteiro Original foram escritos ou coescritos por mulheres, com apenas oito vitórias. Na categoria de Melhor Roteiro Adaptado, 15,8% dos filmes indicados tiveram mulheres na autoria, com 10 vitórias. Além disso, sete das oito mulheres indicadas à Melhor Direção eram brancas.
A questão da representatividade racial também marca a história do Oscar. A primeira mulher negra indicada ao prêmio de Melhor Atriz foi Dorothy Dandridge, em 1954, por "Carmen Jones". Hattie McDaniel foi a primeira mulher negra a vencer o Oscar, em 1940, como Melhor Atriz Coadjuvante por "E o Vento Levou…". Contudo, apenas em 2002 Halle Berry tornou-se a primeira — e até 2025, única — mulher negra a vencer o Oscar de Melhor Atriz, por "A Última Ceia".
Em 2025, Zoe Saldaña tornou-se a 11ª mulher negra a conquistar o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante, ao lado de atrizes como Viola Davis, Whoopi Goldberg, Octavia Spencer, Lupita Nyong'o e Regina King.

O etarismo também é um tema frequentemente discutido quando se fala sobre o Oscar, especialmente em um ano em que o filme A Substância faz uma crítica a esse tema, ao mostrar como mulheres mais jovens são substituídas na indústria do entretenimento em comparação com aquelas com mais de 50 anos. Este ano, a vitória de Mikey Madison, de 25 anos, enquanto concorria com Demi Moore, de 62, e Fernanda Torres, de 59, ambas com mais de 40 anos de carreira, acirrou essa discussão.
O Instituto Geena Davis, em parceria com a Next50, realizou também um estudo sobre a representação de mulheres com mais de 50 anos no cinema e na televisão norte-americana. A pesquisa revelou que, na Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, o reconhecimento de mulheres acima de 50 anos ainda é muito inferior ao de homens da mesma faixa etária.
Segundo o relatório, entre 1929 e 2024, 19% das vencedoras na categoria de Melhor Atriz tinham mais de 50 anos, enquanto 34% dos vencedores de Melhor Ator eram 50+, mostrando uma diferença de gênero de 15 pontos percentuais. Nas categorias de Coadjuvantes, 43% dos vencedores masculinos tinham mais de 50 anos, enquanto 24% das vencedoras femininas atingiram essa faixa etária.
Embora seja uma premiação norte-americana, a diversidade étnica tem se tornado cada vez mais relevante no Oscar. Até 2025, seis atrizes latino-americanas foram indicadas à categoria de Melhor Atriz: Fernanda Montenegro e Fernanda Torres, representando o Brasil; Salma Hayek, do México, indicada por sua interpretação de Frida Kahlo; Catalina Sandino Moreno, da Colômbia, por “Maria Cheia de Graça”; Yalitza Aparicio, também do México, por “Roma”; e Ana de Armas, de Cuba, por seu papel como Marilyn Monroe em “Blonde”.
O continente asiático também está representado, com Michelle Yeoh, nascida na Malásia, vencedora do Oscar de Melhor Atriz em 2023 por sua atuação em “Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo”; e Youn Yuh-jung, atriz sul-coreana de 77 anos, que conquistou o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por “Minari - Em Busca da Felicidade”.

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