Sons do Sagrado - Arquidiocese de Mariana comemora reinauguração de Órgão litúrgico de mais de 300 anos
- Rádio Plural
- 10 de dez. de 2025
- 5 min de leitura
Por: André Medeiros e Lara Ribeiro
A Arquidiocese de Mariana, em comemoração aos seus 280 anos, promoveu, nesta segunda-feira (8), um evento que marca o retorno do Órgão de Tubos Arp Schnitger, instrumento litúrgico que remonta do início do século XVIII. Além da reinauguração do órgão após quase uma década de restauração, é realizada a solenidade “Sons do Sagrado”, com a programação de concertos do dia 8 ao dia 13 de dezembro. Evento também celebra os 40 anos da Ordenação Presbiteral do Arcebispo Dom Airton José, na Catedral Basílica de Mariana, conhecida como Igreja da Sé.

As atividades tiveram início com a missa “Despertar e Benção do Órgão Arp Schnitger” às 10h da manhã, com a presença do Coro do Seminário; Coral Canarinhos, de Itabirito; Orquestra de Padre Simões, com a Regência do Maestro Éric Lana e sucedeu-se o despertar do Órgão de Arp Schnitger na liturgia pela Organista Josinéia Godinho. A cerimônia foi marcada pela valorização do patrimônio histórico, musical e litúrgico.

Desde o ano de 2013 a catedral não escutava o som do órgão em suas missas por conta de danos em algumas peças que impedia seu funcionamento, após 12 anos de silêncio os componentes defeituosos foram levados à Espanha para serem restaurados, o instrumento tricentenário passou também por reformas estruturais antes de ser totalmente entregue novamente à igreja onde ficará preservado.
O Patrimônio histórico e religioso, foi construído no início do século XVIII, entre 1700 e 1710, sendo enviado para uma Igreja Franciscana em Portugal, no convento de São Francisco em Faro. Em 1748, esse instrumento foi adquirido por Dom João V ( Rei de Portugal no período), entregue pelo Organeiro João da Cunha. O Órgão foi um presente de Dom João V para entregar ao 1º Bispo de Mariana Dom Frei Manoel da Cruz. Nesse período, era de responsabilidade do Rei os instrumentos que iriam para as igrejas. Dom João V faleceu antes de enviar o artefato a Mariana. Porém, ele foi entregue pelo seu filho Dom José I em 1752, e instalado na Catedral da Sé em 1753.
O Reitor da Catedral da Sé, Padre Geraldo Diaz Buzani, em entrevista para a Plural, reafirma a importância cultural do chamado despertar do monumento e da relevância histórica para a cidade e os fiéis.
“Da família de Arp Schnitger, dos 32 que existem no mundo, esse é o único fora da Europa, e um grande! E em excelente estado de conservação, com a maior parte das peças originais. Por isso, é um dos instrumentos musicais mais importantes do país. Então, é uma sensação de alegria, de dever cumprido, da Arquidiocese, da Prefeitura Municipal, do IPHAN,de todos os órgãos, do Iepha.”

Josinéia Godinho, Organista que comanda o instrumento de sopro da catedral relembra um dos momentos que se sentiu mais aflita durante o processo de restauração:
“Em 2022, o organeiro estava aqui e a gente descobriu que o órgão não ia ser remontado. [...] Um impacto pesado, pelas incertezas que aquilo trouxe.
Principalmente quando ficou claro que os someiros tinham que sair do Brasil, a gente sabe que não é uma coisa simples.”

A instrumentista defendeu a importância da identificação dos fiéis com a música sacra. Para ela, as pessoas que escutam a música do Órgão não precisam ter conhecimento prévio técnico de música, o que precisam é escutar com o coração.
“É muito interessante, porque com muita frequência, quando a gente sai da missa, algumas pessoas vêm e falam “mas ajudou tanto a rezar”. Porque o instrumento acaba dando uma coisa que não é palpável, cria uma atmosfera de adoração, te mostra que você não está em um lugar comum.”
Sons do Sagrado
À noite, teve início o primeiro evento do projeto “Sons do Sagrado”, comemorando os 280 anos da Arquidiocese de Mariana. O evento de abertura também marcou o Concerto inaugural do Órgão Arp Schnitger, com a apresentação de ‘‘Música Festiva para Trompetes e Órgão’’. Érico Fonseca, professor do Departamento de Música da Universidade Federal de Ouro Preto é trompetista principal da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais e José Vitor Assis orientado pelo Professor Érico tem bacharel em trompete pela UEMG acompanharam o orgão com seus instrumentos e incrementaram a apresentação. A apresentação teve seu início com a composição “Dialogues”, de Eugène Bozza (1905-1991). O programa contou, ainda, com o órgão e os trompetes juntos a composição “Ave Maria”, de Charles Gounod (1818-1893).

O professor e trompetista Érico Fonseca relata sua trajetória de apresentações junto ao órgão e como os estudantes da UFOP podem estreitar essa tradição histórica e cultural.
“A primeira vez que eu toquei aqui foi em 2013 e, desde então, não parei. Devido às interrupções do órgão, obviamente fizemos uma pausa, [...]
Mas eu já sou um parceiro de longa data da Josineia, e para mim é uma honra. Isso aqui é um tesouro [...]
Eu imagino que os marianenses têm muito orgulho de ter esse órgão histórico aqui, que tem um som maravilhoso. Como é que pode um instrumento musical do século XVIII tocar ainda com esse som lindo, incrível [...]
O evento contou com a presença do prefeito de Mariana, Juliano Duarte (PSB); do secretário municipal de Patrimônio Cultural e Turismo, Eduardo Batista; da responsável pelo processo de tramitação e restauro do somero do Órgão, Deise Lustosa; do arcebispo de Mariana, Dom Airton José dos Santos; a organista, Josinéia Godinho e o chefe do escritório do IPHAN Mariana, (nome)
Para o secretário Eduardo Batista o retorno do órgão a total funcionalidade representa mais do que a volta de um instrumento, mas também uma oportunidade do crescimento do turismo local
“Ele é muito importante para a cidade porque ele reforça os valores culturais, os valores religiosos, ele reforça a importância da preservação e a conexão entre o homem e o sagrado.
A Catedral da Nossa Senhora Assunção, ela agora tem todo o seu complexo arquitetônico preservado e restaurado, tanto em níveis estruturais quanto elementos artísticos.
Passamos agora, recentemente, o processo de reforma dos sinos e agora entregamos o órgão
arqueolítico.”
Jacqueline Antunes, é moradora da cidade e acompanhou a reinauguração, confessou não ser frequentadora das missas mas que lembra com carinho de desde os anos 80 assistir aos concertos
“Eu acredito que a questão da sonoridade, do que o órgão traz, essa melodia maravilhosa, completa uma liturgia religiosa, Mariana é uma cidade que traz uma cultura muito específica, e onde a música, no mundo barroco, faz parte do cenário. Então, Mariana, com a questão do órgão, com a questão dessa música erudita, se completa.”
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